Review: Até que a morte dos separe - Peter Swanson
- Virginia Cruz

- há 22 horas
- 3 min de leitura
Atualizado: há 17 horas
Título: Até que a morte dos separe
Autor: Peter Swanson
Publicação: 2026
Editora: Jangada
Tradução: Jacqueline Damásio Valpassos
Review:
Preciso começar essa review com uma confissão: o Peter Swanson é um dos meus autores contemporâneos favoritos. Não só porque eu amo os livros dele, mas também porque através dele eu descobri alguns dos meus livros favoritos DA VIDA. Em um outro texto eu conto essa história.

Então é óbvio que eu chegaria em “Até que a morte dos separe” com todo amor e carinho no coração. Além disso, eu também estava bem animado pois ele deu dicas de que esse seria um livro diferente dos thrillers psicológicos que ele costuma publicar.
Mas quando comecei a ler, já no comecinho, eu sabia que ia amar pois é o tipo de livro que eu amo muuuuito, pessoas horríveis fazendo coisas horríveis e mesmo assim vivendo vidas normais. A maldade cotidiana, aquela que pode acontecer com qualquer um de nós, sempre vai ser a minha preferia (e mais temida).
Aqui temos um casal que, à primeira vista, parecem ter construído a vida perfeita. Wendy e Thom, casados há décadas, moram em uma bela cidade litorânea de Massachusetts, têm um filho que amam, estabilidade financeira e carreiras respeitáveis. Mas, como esperado, nem tudo é o que parece, pois, toda essa perfeição é apenas fachada. O relacionamento está completamente deteriorado, ambos carregam um segredo devastador do passado e a única coisa que ainda os mantém unidos é justamente aquilo que deveria tê-los separado há décadas.

A história é contada de trás para frente, feito de forma muito habilidosa e que com certeza ajuda a aumentar a tensão. O romance começa em 2023 e, a cada capítulo, voltamos alguns anos, até chegar a 1982, quando Wendy e Thom se conheceram ainda adolescentes durante uma excursão escolar a Washington.
Cada capítulo revela mais uma peça desse quebra-cabeça macabro e vai mudando a percepção do que acabamos de ler no capítulo anterior. Situações que pareciam simples ganham um significado totalmente diferente à medida que novas peças vão se encaixando. É aquele raro tipo de livro que faz você reinterpretar constantemente os acontecimentos, sem que isso pareça uma manipulação barata do leitor (chora Freida McFadden).
Apesar de eu amar um bom thriller com bastante ação, soco, tiro e correria, não dá para negar que um bom estudo de personagem também cure todas as feridas. Aqui temos um estudo não só de personagens, mas também de um casamento destruído e condenado pela culpa, ressentimento, dependência emocional e um pacto de segredo que nenhum dos dois tem coragem de romper.
Wendy e Thom são personagens profundamente imperfeitos. Thom é frustrante em praticamente todos os aspectos possíveis, um fracassado, um coitado, alcoólatra, infiel e incapaz de assumir responsabilidade pela própria vida. A Wendy, por outro lado, parece muito mais racional e controlada, mas aos poucos percebemos que ela também não é nada inocente.
Esse livro me lembrou muito o Em Águas Profundas da Patrícia Highsmith, um livro bem polêmico e odiado que eu também amei. Assim como Patrícia, o Peter foge de qualquer tentativa de transformar um deles em vítima e o outro em vilão. O casamento funciona justamente porque ambos compartilham dos pecados que os condenam na mesma medida.

Aliás, um dos aspectos que faz eu amar os livros do Peter é como ele também ama personagens moralmente ambíguos. Ele não parece se importar com a tendência atual horrorosa de que temos que ter protagonistas bons para que o público consiga “se conectar”. Gente chata dos infernos.
Outro aspecto que me chamou atenção foi o fato de o Swanson não presumir que o leitor é uma mula. O livro não sente necessidade de explicar tudo muito bem explicadinho nem de interromper para reforçar informações importantes. Ele simplesmente entrega uma nova peça do quebra-cabeça e você que lute. É uma leitura que recompensa a atenção, especialmente nos capítulos finais, quando pequenos detalhes aparentemente insignificantes ganham um peso enorme.
No fim das contas, “Até que a morte dos separe” reforçou aquilo que faz eu ficar ansiosa para cada livro novo. Ele continua sendo um dos autores mais consistentes do thriller contemporâneo porque foca no que realmente importa, personagens interessantes. Sim, eu entendo, plot twists são legais, podem fazer a gente se sentir otário e dar aquela dose de dopamina, mas são os personagens bem construídos e suas complexidades que fazem uma história permanecer na memória.

Até que a morte nos separe - https://link.amazon/B0dK1hai1
Em águas profundas - https://link.amazon/B0bFGsh6x

Comentários