Review: As Memórias de Barry Lyndon - William Makepeace Thackeray
- Virginia Cruz

- 9 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de jul.
Título: As Memórias de Barry Lyndon
Título original: The Luck of Barry Lyndon
Autor: William Makepeace Thackeray
Publicação: 1844 (em folhetins); edição em livro em 1856
Editora: Pedrazul
Redmond Barry é um jovem irlandês que acredita piamente que nasceu destinado à grandeza. Depois de duelo disputando um amor adolescente, ele é forçado a deixar sua terra natal e inicia uma jornada para lá de inusitada. Ao longo do caminho, nosso desquerido passa por diferentes posições sociais, serve em exércitos, se envolve com a boa e velha jogatina artesanal (#forabets), conhece nobres e bandidos e tenta, a qualquer custo, galgar sua ascensão através do alpinismo social.
Toda a história é narrada pelo próprio Barry, que relata sua trajetória com absoluta confiança em si mesmo e na justiça dos seus atos. O interessante é que, enquanto ele se apresenta como um homem inteligente, honrado e injustiçado pelas circunstâncias, suas palavras são de alguém egoísta, manipulador e incapaz de reconhecer qualquer consequência para suas atitudes. Essa desconexão entre a imagem elevada e honrada que ele faz de si e aquilo que nós realmente percebemos é o que torna a narrativa mais interessante.
O grande mérito de Barry Lyndon está, inegavelmente, na construção do seu personagem principal e narrador. Ele cria um protagonista extremamente vaidoso, mentiroso, traidor, safado, sem vergonha, vagabundo e bandido, mas que JAMAIS percebe suas próprias contradições. Porém, em vez de simplesmente dizer ao leitor que Barry é moralmente falho como os autores atuais AMAM fazer, nós vemos isso por meio da própria narrativa, provando que o Thackeray é sim um dos cristais esquecidos da literatura, pelo menos no Brasil.
Outro aspecto intrínseco da obra é a sátira à aristocracia europeia. Embora Barry deseje desesperadamente se encaixar, ascender e fazer parte da alta sociedade, Thackeray demonstra que a nobreza é podre e está longe de representar qualquer tipo de ideal de virtude. O livro nos mostra um ambiente dominado pela aparência, vaidade, pela ambição, pela corrupção e ganância, mostrando que os defeitos do Barry são apenas uma versão mais explícita e menos envernizada dos defeitos dos nobres.
Mesmo que a vida do Barry tenha momentos trágicos, Thackeray não se aguenta em se rasgar em ironia, o que sinceramente torna esse livro maravilhoso. Muitas das situações mais engraçadas são sempre as que o Barry acredita estar demonstrando uma elevadíssima inteligência e astúcia quando, na realidade, está sendo uma mula sem noção.
Porém, considerando as sensibilidades modernas, talvez Barry Lyndon não seja um livro fácil e para qualquer audiência. Barry não é um protagonista fácil de acompanhar, sendo INSUPORTÁVEL em muitos momentos. Sua personalidade egocêntrica faz com que seja praticamente impossível desenvolver qualquer célula de empatia por ele. Obviamente que é a outra face da moeda do que torna esse livro tão irresistível. EU particularmente adoro um anti-herói, mas para quem acha que precisa obrigatoriamente se conectar com o protagonista / narrador, aí complica.
No fim, o livro é um grande estudo sobre um personagem afundado em ambição social, ganância e vaidade. Apesar da narrativa ser marcada pela época que foi escrita, os dilemas seguem atuais. Entra século sai século, seja na corte europeia ou no Instagram, a vida de aparências e o desejo pela ascensão ainda seguem na moda.

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