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Ruído Branco - Don DeLillo

  • Foto do escritor: Virginia Cruz
    Virginia Cruz
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Título: Ruído Branco 

Título original: White Noise

Autor: Don DeLillo

Publicação: 1985

Editora: Companhia das Letras

Tradução: Paulo Henrique Britto


Ruído Branco parte da premissa que estamos tão soterrados de excesso de informação, propaganda, televisão, consumo e ansiedade que nem percebemos mais o quanto tudo isso molda nossa forma de pensar. Não consigo imaginar a versão desse livro considerando a realidade de hoje, em que perdemos horas da nossa vida acariciando o celular em um feed infinito dos piores vídeos gerados por AI e das opiniões mais burras que a humanidade é capaz de criar.


A história acompanha Jack Gladney, professor universitário e especialista em Hitler (pois é), sua esposa Babette e uma família gigantesca formada por filhos de vários casamentos. A rotina deles é relativamente normal até que um acidente causa um desastre conhecido como "Evento Tóxico Aéreo". Mas não se preocupe, esse livro não é sobre catástrofes. O acidente é apenas o pano de fundo para discutir aquilo que realmente interessa: o medo da morte, a artificialidade da vida moderna e a quantidade absurda de ruído (literal e metafórico) que nos cerca em todos os lugares o tempo todo.


Ler esse livro é quase como um delírio febril. Muitos diálogos parecem desconexos, absurdos, fora de contexto, até quase surreais, mas é justamente aí que mora o encanto. É como ouvir pessoas falando mas sem se entenderem, cada uma perdida dentro do próprio universo particular de referências, propagandas, medos e pequenas obsessões. É engraçado, desconfortável e incrivelmente atual.


Embora os temas sejam pesados, Ruído Branco está longe de ser um livro deprimente. O humor é seco, irônico e, muitas vezes, te pega de surpresa. É um belo exemplo do estilo bem americano de se escrever. Em diversos momentos eu me peguei rindo de situações que, se analisadas objetivamente, deveriam causar dor e sofrimento. DeLillo entende que a realidade é mais estranha que a ficção SIM e que, às vezes, só rindo mesmo.

Adoro quando um livro se revela extremamente profético, nem parecendo ser uma obra escrita nos anos 80. A obsessão por informação, a dificuldade de distinguir o que realmente importa, a medicalização da vida, o excesso de estímulos e a sensação constante de que alguma tragédia está prestes a acontecer fazem Ruído Branco parecer um romance escrito durante da pandemia, sobre redes sociais e criticando a era dos algoritmos.


No fim das contas, Ruído Branco é um livro sobre a morte, mas, curiosamente, também é um livro sobre tudo aquilo que usamos para nos distrair para não pensar nela. Compramos muito, assistimos por horas, consumimos conteúdos anestesiante em uma quantidade obscena, acumulamos informações, perdemos tempo discutindo sobre banalidades e seguimos em frente como se o próximo lançamento tecnológico fosse finalmente resolver o problema de sermos mortais.

RIP Don DeLillo, você deve odiar o Instagram. (Importante: o Don DeLillo está vivo)

 
 
 

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