Vivo ou Morto, ninguém se importa
- Virginia Cruz

- 18 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

CONTÉM SPOILERS DO FILME!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Quando foi anunciado que teríamos mais mistérios investigados por Benoit Blanc, eu fiquei super feliz. Como grande fã do filme Entre Facas e Segredos e do gênero de mistério, seja em livros ou em filmes, transformar o Benoit Blanc em um detetive com uma série de filmes parecia a ideia perfeita.
Porém, minha felicidade durou pouco pois quem faria esses novos filmes seria a Netflix.
Eu odeio a Netflix. Isso é um fator muito fundamental para entender sobre mim, e eu sempre parto dessa perspectiva quando falo sobre qualquer filme feito por eles.
Os motivos são muitos, e talvez um dia eu consiga articular tudo em um único texto.
Mas, para a finalidade do presente texto, uma das principais razões é que eles têm como projeto tratar o público como idiota. E, quando estamos falando sobre uma obra de mistério, tratar o público como idiota é sempre um problema.
Além do problema gravíssimo de ser um filme da Netflix, outro ponto muito frustrante é que o Rian Johnson anunciou que sua inspiração para o terceiro filme da franquia seria a obra do John Dickson Carr.
Minha experiência com Carr é frustrante, para ser bem sucinta. Ele é considerado o pai dos mistérios de salas trancadas, aquele tipo de mistério em que o crime acontece em um ambiente lacrado e, portanto, é considerado de execução (e solução) impossível.
O meu livro favorito de mistério de quarto trancado é O Mistério do Quarto Amarelo, do Gaston Leroux (tenho um vídeo só sobre ele aqui). Inclusive, o próprio Carr o considera o melhor de todos (até um relógio quebrado etc.).
Do Dickson Carr, eu já li The Black Spectacles, que achei bem qualquer coisa, e o livro mencionado no filme: The Hollow Man.

The Hollow Man foi eleito o MELHOR mistério de quarto trancado de todos os tempos, e só posso concluir que todos os envolvidos nessa escolha sofreram algum surto coletivo.
Quem quiser me ver muito brava sobre o quanto eu odiei esse livro, tem uma live inteirinha aqui. Mas, basicamente, a solução do mistério me ofendeu em um nível pessoal.
Esse livro é reverenciado pelos fãs do gênero por conta de uma tangente sobre mistérios de quarto trancado, uma dissertação que o autor enfiou no meio do livro. Não entendo a razão de isso estar ali no meio, e não faz o menor sentido elogiar um livro que tem uma narrativa própria só por causa disso. Publique uma introdução, um posfácio ou um ensaio como uma pessoa normal.
Então, considerando o acúmulo de frustrações, quando dei play em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (nome horrendo por si só), as minhas expectativas estavam baixas. Mas eu também não esperava desgostar tanto.
Os problemas
2025 realmente foi o ano da Manuela Dias: o fio do Google não passa mais na casa de ninguém. Sei que vivemos a era da pós-verdade, mas eu acredito, sim, que ainda é possível construir uma história minimamente pautada na realidade.

Em que planeta católico uma paróquia é passada de avô para neto? Padre com filha legítima? Padre com patrimônio pessoal? Padre que, com sua fortuna pessoal, fundou uma paróquia, deixou herança para a filha e agora o neto é o padre?
É ridículo que um filme dessa magnitude de investimento, relevância e elenco tenha uma premissa tão errada, principalmente quando essas questões são a origem e a motivação de todo o mistério que vai se desenvolver ao longo do filme.
Esses erros não são detalhes notados por uma carola muito rigorosa com informações sobre religião. São erros crassos sobre conhecimentos extremamente básicos da Igreja Católica.
E você pode estar pensando: “Mas, Virginia, você está sendo chata, azar de quem não consegue voarrrr”. Ao que eu respondo: CHEGA DA DITADURA DO ‘NÃO É TÃO SÉRIO’.
Nos primeiros 10 minutos do filme, eu já estava ‘“que porra é essa?”, de tão absurda e sem pé nem cabeça que era a premissa do padre com filha legítima e herança. Nada do que veio depois fez qualquer sentido lógico, e isso me impediu de aproveitar a história como um todo.
Obviamente, há o argumento de que essa é a ideia da série. Glass Onion também é ridículo em muitos aspectos, mas eu sinceramente acho diferente. Glass Onion é uma sátira; o absurdo é um elemento fundamental.
Eu jamais reclamaria que a Mona Lisa não seria removida do Louvre na vida real (inclusive, deveriam, considerando que o museu está em pandarecos) e que, por isso, não consigo aproveitar o filme. Eu consigo trabalhar com uma premissa absurda desde que ela esteja inserida em uma obra que pretende ser absurda, o que não é o caso de Vivo ou Morto.
Inclusive, muito pelo contrário. O 3º filme da série adota um tom muito mais sóbrio e introspectivo, com um Benoit Blanc mais reflexivo sobre seu papel na solução de crimes, discussões teológicas com o Padre Jud e até mesmo na graça concedida aos culpados no final.
Além disso, o filme é extremamente previsível. Para quem está acostumado com o gênero, já dava para imaginar quem tinha cometido o assassinato, mesmo que o motivo e a forma de execução pudessem ser um mistério ainda.
A escolha de ter o Padre Jud como narrador foi um erro, na minha opinião, pois eliminou um dos poucos possíveis suspeitos. Até poderia ser o caso de ele ser um narrador não confiável, principalmente depois da cena na floresta, na segunda morte, mas a história não foi construída de forma a indicar essa possibilidade. Então, era óbvio que ele era inocente.
Só sobrava o segundo personagem que teve oportunidade, o único que esteve dentro da câmara, e assim foi feito.
Ainda incluíram um plot twist final que encaixou algumas peças, mas que, assim como em The Hollow Man, se utilizou de artifícios intensamente cômicos.
Uma peça maciça e pesada costurada na roupa do padre? Hum, ok.
Essa peça com um mecanismo que libera sangue por controle remoto? Então tá, né.
Exame toxicológico no cadáver? Simplesmente não existo.
Troca de defunto? Tranquilo.
Gosma verde? Claro, por que não?
Impressão digital? Nunca ouvi falar!
E, de novo, eu sei que vai ter gente dizendo que estou sendo chata e cricri com os detalhes, mas para mim o acúmulo de situações ridículas extrapolou o aceitável.
Além disso, essa questão de só existirem dois suspeitos possíveis (o Padre Jud e o assassino) é muito frustrante, porque o elenco é incrível e eles estão basicamente lá, sem muita história ou personalidade, só sendo famosos no fundo da cena. E, como um “bom” John Dickson Carr, os personagens têm a profundidade de um pires.
Nos dois primeiros filmes, todo mundo realmente tinha motivo e oportunidade para matar a vítima. Em Vivo ou Morto, os motivos são jogados em uma única cena que, no fim, se torna irrelevante, pois a impossibilidade física do crime limita a lista de suspeitos.
As acusações e revelações são rapidamente esquecidas, pois não fazem parte do mistério principal: como o crime foi cometido.
Inclusive, para mim, essa é a grande falha dos mistérios de quarto trancado: perde-se tanto tempo com os detalhes técnicos da execução do crime que geralmente não sobra espaço para construir personagens com narrativas interessantes. Além de, quase sempre, haver uma explicação absurdamente ridícula.
Eu acho ótimo que o Rian Johnson tenha a oportunidade de trazer mistérios tradicionais para o mainstream, principalmente quando é só um mistério pelo mistério, divertido, sem um detetive atormentado pelo passado trágico e aquele único crime que ele nunca superou, blablabla zzzzzz. Mas também não precisa ser idiotizante.
E eu culpo parcialmente a Netflix por isso, sim. Aposto que, se fosse um filme de verdade feito para o cinema, seria infinitamente melhor construído.
Mas nem tudo é desastre
Não estou aqui só para falar mal:
Gostei que é um filme colorido e bem iluminado;
O uso da luz natural nas cenas foi inteligente, acompanhando os diálogos e simbolizando a ideia de “iluminação divina”;
Glenn Close, óbvio;
Josh O’Connor parece ser um querido. Eu odiei a nova adaptação de Emma, mas ele (também de vigário) também está ótimo. Gostei muito da atuação como Padre Jud. Mãos enormes;
As tiradinhas zoando a extrema-direita e os grifters de internet;
A discussão, ainda que superficial, sobre o papel da fé nos dias de hoje;
Adoro o fato de que o personagem do Benoit Blanc tenha personalidade o suficiente para ser marcante mas a história não gira em torno dele. O foco é o mistério e os personagens inseridos nesse mistério. Ele está ali como acessório, adaptado ao ambiente mas mantendo uma essência, e é assim que um detetive de série de mistério tradicional deve ser.
Fico feliz que o filme esteja fazendo sucesso, mas esperava muito mais mesmo com as expectativas baixas! Principalmente porque eu SEI que o Rian Johnson é capaz de muito mais. Talvez se ele se inspirasse em autores melhores…
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